John dos Santos Brook (+18 de mentalidade)

Fidalgo de Bacelar (excerpt)

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Batiam punhetas nas esquinas nocturnas e obscuras dos pilares do viaduto, junto à sede do Jogral de Notícias, um dos jornais mais importantes da cidade, enquanto viam desfilar as putas e os transsexuais profissionais de uma profissão ilegal. Eram eles bêbados e tarados, junkies, sem dinheiro para pagar o sexo, a quem, como animais, devia ser natural. Os segregados da sociedade, por culpa própria, ou porque a vida assim o determinou em concílio com o destino e com a morte. Eles tocavam à segóvia fazendo justiça com as próprias mãos. E era com toda essa fome que esgalhavam o pessegueiro.

Fidalgo de Bacelar, de 26 anos, conhecido no Porto como “Mãozinhas”, era um carteirista exemplar, daqueles que não roubava a vítima sem uma breve introdução, excessivamente educada, que retratava uma vida passada completamente deprimente e degradada. Um autêntico argumentista da ficção da própria vida. Era óbvio que a própria vida, no presente, já era degradada o suficiente para confundir quem abordava. Logo, não importava o que havia passado. As pessoas mais sensíveis davam-lhe migalhas de dinheiro em função da mendicidade. Era daqueles que dizia: «Ó chefe, mais vale pedir do que roubar. Eu peço para não ter que roubar». Uma espécie de ameaça, como quem diz “se não me dás nada roubo-te”. O “Mãozinhas” era tão jovem para a vida que escolhera levar, tal como muitos outros. E digo “escolheu” porque o verdadeiro passado lhe dava esse poder de escolha. Oriundo da Foz, de famílias abonadas, na adolescência foram-lhe descobertos os indícios de cleptomania. Roubava estojos das mochilas dos colegas da escola. Em casa, uma colecção de objectos de irrelevante valor encontrava-se num baú. Desde chávenas de café a isqueiros, chaves, telemóveis, até pensos higiénicos. Descoberto pela mãe foi encaminhado para um psicólogo que o reencaminhara para um psiquiatra. Parecia que a patologia se tivesse dissipado com o tempo. A grande questão é que se agravou. Abrira um buraco no quintal e fazia a manutenção de madrugada, num momento em que todos os olhos vigilantes da família estavam em suspensão.

Foi-se embora de casa quando levou uma sova do padrasto que o flagrara a cometer um dos seus crimes. Desta vez uma atrocidade desumana. Enfiou os gatinhos recém-nascidos da gata doméstica, 7 no total, num saco de sarapilheira e levou-os para o abismo das suas madrugadas. Depois de os abafar com a terra, ficara ali a falar com os objectos e com os bichos que acabava de matar. Sentia-se feliz com o novo patamar que atingira na loucura da sua maluquice doente.

– O que é que estás aí a fazer? – Perguntara o padrasto, sem compreender o momento inusitado.

– Ehh, nada papá Gastão… – Disse engasgado, como que fugindo à pergunta, sem qualquer argumento que justificasse. – Ouvi um barulho cá fora e vim ver o que se passava. Estava assustado.

– Estavas assustado e vieste cheio de coragem… sozinho? – Inquiriu Gastão de Bacelar Noronha, desconfiado e procurando um motivo para lhe dar um enxerto correctivo.

– Errr, sim… mais ou menos! – Ainda de joelhos, baixou a cabeça, como um rato de laboratório que não encontra escapatória nas armadilhas de um labirinto.

– Estavas assustado mas eu vi-te a sorrir… estavas a falar com alguém? – Abeirou-se do enteado e, como num penteado, passou-lhe a mão na cabeça de forma firme e perversa. – Porque é que estiveste a escavar no jardim. O que é isso?

– Não.. eu não estava a falar com ninguém… eh, estava só a rir-me por ter sido estúpido ao ficar assustado com algo que não existia. – Disse escondendo as mãos sujas de cavar, e sentando-se sobre a campa da criminalidade.

– O que é que me estás a esconder rapaz? Olha que eu não sou a tua mãe, dou-te já duas bofetadas.

Fidalgo de Bacelar, com 17 anos naquela altura, gritara por socorro, enquanto o padrasto lhe tentava abafar a voz com uma mão e tirando o cinto com a outra. A mãe chegou a meio da acção, de camisa de noite, despertada pela espera e estranhando a ausência do marido que devia chegar de uma reunião partidária. Correu para acalmar Gastão de Bacelar Noronha da fúria com que executava a reprimenda a Fidalgo. Frederica de Bacelar ordenou que o rapaz fosse para dentro de casa deitar-se, já lá iria ter com ele para resolver a situação.

Depois de uma breve discussão entre marido e mulher a acalmia instalou-se. Ficaram os dois sem dizer nada, a fumar cigarros de mentol. Foi quando olharam um para o outro e, seguidamente, para aquele pedaço de terra desbravada. Foram analisar. Gastão, com a ajuda de um pau, escavou o buraco. Não tenho palavras para descrever a reacção dos dois, mas penso que qualquer pessoa tenha uma boa imaginação para a conceber.

Quando chegaram ao quarto de Fidalgo, furiosos, já não o encontraram. Tinha levado uma mochila com algumas peças de roupa. Partira.

Dormiu numa casa abandonada algures na freguesia de Campanhã. Acordou no dia seguinte com um indivíduo que o ameaçava com uma seringa.

– Dá-me tudo o que tens, já! – Gritava o carocho, manifestando os efeitos de uma ressaca agressiva, com a seringa próxima do pescoço de Fidalgo. – Eu sou seropositivo.

– Toma, toma… leva tudo! – Disse Fidalgo chegando-lhe a mochila, tentando dominar o nervosismo que se lhe apossara.

O carocho pegou na mochila e obrigou-o a descalçar as sapatilhas NIKEN. Quando Fidalgo as sacou, aproveitou o momento para derrubar a seringa das mãos inseguras do assaltante e, com um pontapé firme no joelho, partiu-lhe a rótula. O gajo lá ficou a berrar, a grunhir, a queixar-se das dores, enquanto Fidalgo recuperava os seus pertences. O carocho ainda tentou balbuciar qualquer coisa, mas o rapaz já se tinha evaporado daquele sítio sombrio onde a luz do sol penetrava sem permissão das tábuas que remendavam as janelas destruídas pela inclemência dos tempos.

Cá fora a realidade parecia deturpada. O coração de Fidalgo queria saltar. O estômago era um rato em protesto. Deteve-se. Estendeu o próprio corpo no chão até que passassem as tonturas. Decidiu voltar à casa em ruínas.

– Eh rapaz, ajuda-me aqui…! – Disse-lhe o carocho no meio de gemidos.

– Ajudo-te, eu!? Seu filho da puta… ladrão de merda.

– Anda cá rapaz… esta vida já não tem sentido nenhum para mim. Não tenho nada a perder, tenta compreender, só preciso de sobreviver.

Fidalgo aproximou-se dele e revistou-lhe os bolsos. Encontrou apenas uns trocos que não chegavam para a dose do carocho, mas que davam para comer qualquer coisita. Quando ia a sair, olhou para a seringa no chão. A agulha não tinha partido nem entortado. Numa atitude maníaca pegou na seringa que continha um líquido amarelado e sorriu olhando para o carocho.

– Não rapaz, que estás a fazer? Isso é lixívia. – Temeu pela vida.

– Tudo bem, não te preocupes, tudo vai passar. – Disse-lhe em tom de conforto e injectou o líquido corrosivo num dos braços putrefactos do carocho.

Enquanto observava o velho Zeca Fininho, de 57 anos, a contorcer-se como se ardesse por dentro, esboçou um sorriso maquiavélico. Olhou para uma das janelas remendadas e dirigiu-se a ela arrancando uma das tábuas ainda com os pregos. Voltou para junto de Zeca Fininho e começou a bater-lhe com muita força, fazendo com que os pregos perfurassem o crânio. Bateu, bateu, bateu. Até que Zeca cessasse as suas funções vitais, bateu. Quando expirou, Fidalgo inspirou, deixando cair o pedaço de madeira ensanguentado sobre o tapete de sangue que marcava o perímetro do recente cadáver. Sentou-se, encostando-se a uma das paredes, e ficou ali, a olhar para o resultado da sua acção. A contemplar a obra magnânima.

– Esta vida já não tinha sentido nenhum para ti. Eu compreendo. – Exaltou-se e questionou o cadáver. – Porque é que me fizeste fazer isto? Acabaste de perder a única coisa que tinhas para perder. Pediste-me ajuda e eu ajudei-te. Sabes, eu sou altruísta. É isso mesmo. Um altruísta. Descansa em paz meu caro filho da puta.

Levantou-se, fechou os olhos, fez o sinal da cruz como tinha aprendido nos tempos da catequese. Abriu os olhos e olhou para uma fenda que havia no tecto, um buraco negro de onde brotava a podridão de toda a humidade instalada, como se falasse com deus. Saiu.

Fidalgo de Bacelar, agora “Mãozinhas”, era um desses indivíduos assíduos, mas não pontuais, dos pilares do viaduto. Tinha o hábito de se masturbar acelerado por uma boa dose de heroína. Esfregava o animal e vinha-se nas próprias mãos, por dentro das calças. Apresentava-se nos banhos públicos municipais uma vez por semana. Creio que fosse às quartas-feiras. Os restantes dias acumulava camadas de sujidade, suor e outros fluídos.

(cont.)

Gin Whisky

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Excerto de Fidalgo de Bacelar, do Livro “John dos Santos Brook, de Ismael Calliano

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A POESIA DO TEMPO

Escrever poesia assim
como eu penso que escrevo
é uma perda de tempo

Escrevo para parar o tempo
para não o perder de vista

E quando paro
reparo que o tempo esse mesmo tempo
que tanto anseio que páre
reparo que segue qual comboio sem paragem

Ao menos que o tempo
que julguei que pudesse parar
se eternize nestas palavras
do calibre da tontería mais absurda
de quem não sabe – porque
pára para escrever que o tempo
tal qual o conhece não pára de facto

Escrevo para parar o tempo
no tempo certo de o parar

Porque a poesia está no momento
em que páro para reparar que o tempo
não pára

Que absurdo
que perda de tempo
a poesia

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Ismael Calliano

ph. Lacie Slezak (Unsplash)

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A TERCEIRA GUERRA

  «Não  sei  como  vai  ser a  Terceira  Guerra  Mundial,  mas  sei como  será  a  Quarta:  com  pedras  e  paus» 

Albert Einstein

Provocamos o caos fugindo do próprio. Causamos o terror e o pânico porque pensamos, e porque opinamos, e o livre arbítrio dá-nos cabo da existência. Foge-nos dos sentidos um tal de liberalismo fraternitário.

Estamos em pleno séc. XXI, eis a Terceira Guerra Mundial, em que o jogo é composto por anti-regras, em que reagimos sem que se nos suceda a própria acção, em que respondemos sem que nos tenha sido perguntado nada, e agimos através de crenças absolutas e totalitárias. Eis a Terceira Guerra Mundial, e dela fazem parte a liberdade de expressão, a religião fanatista e a igualdade fraternitária.

A matança é o nosso culto, a nossa religião. Uma autêntica valsa de lobos e ovelhas no mesmo saco, na mesma cerca. O sarcasmo envolve-nos, a nós nações, como se fosse  lodo, e a hipocrisia é o carrossel dos nossos desejos de infância.

Os governos super-potentes são  os  que  financiam  tudo  isto tomando  como  explicação o oportunismo capitalista. Sim a frieza desses abutres intocáveis metem-nos nojo. A Europa não sabe  como  reagir, como agir. A Europa sente-se virgem nestes assuntos tão actuais,  e vai fazendo experiências na possibilidade de salvamento de milhares de vidas. E vão desaparecendo crianças no meio deste pesadelo global. E teme, a Europa, o desemprego. E desvanecem vidas no mar, e dão à costa, de madrugada, crianças – pequenas flores – que se fotografam ao amanhecer em prol das manchetes dos grandes jornais do mundo. E tememos  ser  infestados de estrangeiros  que  não  falam  a nossa língua,  esquecendo  que também  eles têm  um  coração,  e  que  sentem,  e  que perderam tudo  –  deixaram  para trás as ruínas construídas pela ganância da humanidade. Incomoda-nos o telemóvel de última geração que conseguiram salvar. E queremos-lhes os pendentes de ouro que trouxeram, porque não podemos dar sem receber. Não pode haver solidariedade. Tudo tem um preço. As pessoas não se podem sentir agradecidas por elas próprias a seu tempo, não. É obrigatório que assim se sintam. E compreendam que têm que seguir as nossas regras.

Temos, todos, tendência a culpar os United States, e com alguma razão. Faço-me acompanhar do Discurso de Turim (2002), de Harold Pinter, embora seja do tempo de Bush. Sim, é verdade, toda a acção que se passa neste presente não  passa de consequência. Toda a acção tem uma consequência, e o passado está  nas mãos do inimigo. Já repararam em quão perigoso isso é?

Todos estes acontecimentos que temos vivido ultimamente têm uma história e é importante estudar isso. É claro que morrem inocentes, e é mais fácil para nós atribuir culpas e criar mágoas ou adensar sentimentos de vingança. Da minha parte, sinceramente, nem sei o que sinta. Sinto uma revolta contra a desumanização que estamos a viver. No fundo de toda a questão deito culpas ao dinheiro. O dinheiro é a principal religião que rege o mundo ocidental.

O ser humano é corruptível, penso que disso nunca houve dúvidas. Vivemos numa era consumista (desde que me lembro), e não reparamos que o próprio consumismo é sinónimo de Morte. Vamo-nos mortificando aos poucos sem saber o que viver, como viver. É mais importante a tecnologia, e o constante investimento neste plasticismo, do que o próprio pão.

Eis que a Terceira  Guerra surge na intelectualidade dos seres não pensantes. Eis Europa, estás a ver!? Lá se vai o Reino Unido armado em grande sem noção da cilada criada por si próprio. Eis Europa, bem vês que toda esta Crap do Trump é uma  Trap. E que a trupe do gajo é mais que a Trupe do Pateta. Que venha o ódio, o racismo, a homofobia, a xenofobia, tragam para a liderança seres misóginos e preconceituosos, espelhos e reflexos de seres não pensantes. Mas não faz mal, não é!? Em que é que consiste a evolução humana, e o que é, de facto, o retrocesso!? E o que é que tu tens a ver com isso? E o fim do mundo, esse, em que é que acreditas – em leões com cabeças de fogo e animais híbridos que só existem em descrições de escrituras; ou antes num próximo Big Bang provavelmente provocado por um Chuck Norris combinado com um MacGyver? Em que é que acreditas Europa!? Acreditas em ti? Ou no fim do Mundo – sem ti?

O Mundo chora por ti,   

e eu choro pelo Mundo.

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texto. ismael calliano

ph. ricardo marques

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FLASHES AUTOBIOGRÁFICOS III


A MORTE DE ZÉNON 

Algures,  perto,  não  me  lembro exactamente  do  local,  a cerca  de  30 min  a  pé  de  casa,  funcionava  um programa  de alimentação  para  crianças de  famílias  carenciadas. Era o dia Mundial da Criança, 1 de Junho. Eu  e Zénon, meu irmão, lá fomos  –  afinal éramos gente carenciada. 
Era  sábado,  o  clima  típico  africano. Não  Me  lembro  do que se passou à nossa ida, nem do  que fizemos ao lá chegar, nem sequer do que comemos. Talvez  tenhamos  comido  uma bruta duma feijoada. Era almoço. Nem me lembro de ter ido alguma vez mais ao tal programa, ou a programa do género. Esse  dia marcou-me apenas por uma razão. A morte do meu irmão. Depois  de termos almoçado viemo-nos embora. 

A caminho de casa éramos traquinas e brincávamos um com o outro. Ele era mais velho. Protector. Éramos felizes com as minhas birras e ciumeiras. A 13 minutos  de  casa, na rua perpendicular  à de João Belo, começou a morte  a sussurrar-nos ao ouvido. Um rapaz, albino (de traços de negro), olha-nos com olhar de cobiça. Não tínhamos bens materiais, nem bens consumíveis. Nada que se pudesse roubar. Qual seria o intento então? Prazer conflituoso, talvez? Não sei, nem nunca cheguei a saber. Começou a perseguir-nos. Percebemos pelo olhar escuro e assombroso dele. Iniciámos uma marcha mais acelerada. Corremos. Fomos perseguidos. Ao dobrar da esquina, chegando à Rua de João Belo, Zénon encosta-se ao muro de uma das casas e, devido à minha incapacidade de correr mais rápido, sugere que salte para as suas  “cavalitas”. Inclinou-se perante o muro com a cabeça encostada. Era um muro forte e feio, feito de cimento, áspero. Demasiadamente áspero. Ordenou-me que subisse. Desajeitado, subi. Olhei para trás, o rapaz vinha. Olhei para a frente como quem quer alcançar  a meta e não pode desistir do topo quando está no penúltimo degrau. 

–  Mano vamos!!! Mano ele vem aí!!! Mano vam… 

Não houve reacção, nem acção, nem tempo nem contratempo. Uma menina do bairro, devia ter a minha idade, uns 5 aninhos, chega-se-me à frente, como um anjo caído do nada, e anuncia-me a sua morte com palavras simples, nuas e cruas: 

–  Olha, o teu irmão está morto. 

O resto foi vazio. Não me lembro de nada. O predador perdera existência. Encontrava-me, sentado, em cima da morte, pronto a cavalgá-la. 

A razão científica da morte do meu irmão, não sei eu dizer. Provavelmente seria algo como enfarte ou congestão. Afinal havíamos acelerado a circulação devido à situação, interrompendo, assim, a digestão. Para mim foi assassinato. 
Embora ninguém nos tenha tocado fisicamente. A foice da morte caiu propositadamente, acertando no meu irmão. Sou humano. Da mesma forma que sei perdoar, sei guardar ressentimentos. Roubarem-me Zénon foi como roubarem-me uma infância mais que desejada. Não chorei. Penso nunca ter chorado pela morte do meu irmão. Tornei-me insensível à morte. 

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Ismael Calliano 

FLASHES AUTOBIOGRÁFICOS II

​Às  vezes,  quando  me  olho  ao  espelho, vejo-me. Às vezes.  Tenho  um sorriso, que  sorri para  mim  mesmo,  quando estou  triste. Às vezes  gozo  comigo mesmo.  Rio-me até.  Rir  não  é suficiente para  agradar ao  cifrão.  Se assim  fosse,  eu  estaria bilionário.  E  as criancinhas  pobres  de África  seriam bem mais  ricas  do  que eu.  Nem  é tanto sobre  o  riso  que  me pronuncio.  É  mais sobre  o  sorriso.  É um  contentamento que, só  as  crianças  –  aquelas  crianças  –, de  estômago  faminto, sentem. 

Procuram  “doces”. “xuingas” (chewing gums).  Parecem moscas  à  volta  das pessoas  de  posses. Não  é  que  as pessoas de posses  sejam merda. Não é isso que estou a dizer. Muitas são. Mas não todas. Felizmente, ainda existem almas benevolentes. As crianças correm quando  as  veem:

<<Tem doces!? Tem doces!? Tio, tia, tem doces!?>> 

E, porventura lá há alguém que tenha comprado o saquinho dos rebuçados da boa acção. Mas os petizes querem mais, aprenderam desde cedo que se tem que pôr comer na mesa.

<< Tchê tio obrigado, muito obrigado. E dólares tem!?>>
As  machambas  –  porções  de  terra  de cultivo  -, dão  a pouca  subsistência  que existe  para  quem  nada  tem. E se, quem não tem nada, também não tem machamba, a existência nesta vida é abstracta. 

Ainda me lembro, havia uma machamba – tão  pequena como o estacionamento de dois, ou três, ou quatro carros em fila -, junto à paróquia, ao lado da casa da vovó Teresa. De lá, se não estou em erro, extraíamos mandioca, batata doce, e verduras como a “cacana” – alimento amargo da minha infância -, ou as folhas de uma planta qualquer, que conhece a minha ignorância, para a preparação de um prato típico, que me deliciava tanto. A “matapa”. 

No jardim lá de casa, que felizmente não era um barracão de zinco, nem uma palhota, havia árvores de fruto, tais como: goiabeira, abacateiro, mangueira, e, se não estou em erro, havia ainda uma romanzeira. 
(…)

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Ismael Calliano, in Turvas Memórias
2013 (não publicado – ainda)

ph. marques ricardo 

REMINISCÊNCIAS 

Hoje estreia ‘Desabafos do Henrique Cimento‘, o meu primeiro contributo em nome próprio para a cultura, em Portugal.

Como me sinto!? Sinto-me com o coração nas mãos, como se fosse ser devorado por leões e hienas. É um sentimento inocente que emerge de dentro de mim, que mistura medo e coragem.

“Merda”, desejam-me os que acreditam no meu trabalho, e aos colegas que cumprem a hipocrisia – sinto-lhes o cheiro.

Tenho que relaxar, irá tudo correr bem. No máximo só poderá correr bem. São palavras fortes,  não terei medo de dizê-las através da persona.

Encontro-me num café, oiço música. Billie Jean, uma versão que desconhecia, mas que cintila nos meus ouvidos, e cai bem.

[10 de Janeiro 2013 ]


A estreia já lá vai. O Tiago Araújo teve uma excelente prestação, e com isso conseguiu arrancar uns aplausos intermináveis. Merecidamente. É um excelente actor. De uma humildade pouco comum no jogo egocêntrico da grande comunidade artística. Estou contente com todo o trabalho que fizemos, todo o processo até à estreia. De facto, aprendi muito com ele, apesar de ser eu a dirigi-lo, a orientá-lo. É o seu primeiro solilóquio (para lhe não chamar ‘monólogo’, obviamente fugindo ao termo). Quem assiste ao espectáculo percebe o porquê de não lhe atribuir esse termo, sendo que, para mim, o termo solilóquio traz-me mais a ideia de diálogo – ainda que solitário.

Não fui ao palco agradecer nem discursar, embora sentisse que a situação a isso exigisse, pela vontade de mostrar o trabalho e de introduzi-lo, e tornar-me visível para que toda a gente soubesse quem sou e o que represento. É necessário nesta área, que apareçámos para que saibam que existimos. Como dizia, não fui ao palco. Não saberia o que dizer. Fiquei sentado, num canto da plateia, abafado pela quantidade de gente presente naquela sala pequena do Contagiarte – no Teatrinho. Uma caixa negra com uma plateia onde cabem no máximo, e  já apertados, uns 50 espectadores.

Começara o espectáculo. Ao ouvir as minhas próprias palavras a esvaírem-se da boca do Tiago, senti-me, de quando em quando, um pouco inseguro. Outras vezes convicto da realidade desta personagem da minha criação, Henrique Cimento, numa linguagem assumidamente filosófica, mas que o naturalismo da interpretação permite a coesão, como um ser que desabafa na realidade, como que se estivesse sentado num bar a falar com um desconhecido.

Acabou, tão rápido. E a minha cabeça em convulsão, deixava o meu corpo ser percorrido por um arrepio incomum.

Esperei que toda a gente saísse da sala para poder ‘desabafar-me’ do abafo que sentia. Da claustrofobia, da irrequietude.

As criticas!? As críticas eram previsíveis – mais da parte dos colegas da área do que das pessoas menos ligadas. De uma forma geral o espectáculo foi aceite. Ouve a necessidade de se querer ver mais da parte de algumas pessoas. Os da casa – a quem devo o agradecimento pelo acolhimento – congratularam-nos com alguma estupefacção. Diziam que tinham ficado surpreendidos, que não estavam nada à espera. Outros espectadores, na sua grande parte mais velhos que nós, falavam sobre a maturidade do texto – que seria incomum um jovem tão novo como eu escrever sobre assuntos daqueles, com uma perspectiva geral mas assertiva. Isto levanta-me a moral como é óbvio. Mas não me tira os pés da terra. Sei muito bem que o que agora cai bem, amanhã poderá cair mal. O que hoje é, amanhã pode não ser.

[11 de Janeiro, 2013]

Ontem, dia 11 – segundo dia de apresentação dos Desabafos do Henrique Cimento -, a adesão ao espectáculo foi surpreendente. O que na estreia eram uns meros 49, ontem eram mais de 50. Obviamente lotação esgotada. Havia tanta gente à espera – provavelmente por marcação em cima da hora (típico português) -, tiveram que retornar a casa uns 6 ou 7. Ficámo-nos por 50 espectadores. E chegava – todos muito bem apertadinhos, como umas sardinhas enlatadas.

É claro que estes números não são suficientes para quem quer mostrar trabalho, para quem quer apresentar algo a milhares de pessoas. Mas temos que começar por algum lado. Com pouco público, porque não há possibilidades para mais. Todo este espetáculo foi construído com ‘zero’ de orçamento. Escrito, produzido e dirigido por mim. Não me esquecerei de quem me apoiou na produção, a Beatriz Frutuoso. Quem elaborou o primeiro cartaz, o Tiago Gomes aka GodMess. No acolhimento a Ana Saltão e o Rui Oliveira juntamente com a Daniela e o Johnny. E muitas mais pessoas que fizeram isto acontecer com o seu apoio.

Hoje será a última apresentação. Vamos lá ver o que o futuro nos reserva.

[12 de Janeiro, 2013]

Ismael Calliano 
ph. inês simão

E tu!?

​E tu!? 

Eu  tenho.  Eu  tenho  medo  das pessoas. Tenho  medo  de abrir  a  boca  e não saber o  que  dizer. 

Eu  tenho!  Tenho  medo  de  mim próprio. 

Eu  tenho  medo  da  minha  acção  e  da minha  reacção. Tenho  medo  de ficar sem  reacção.  Tenho  medo  de  reagir. 

Eu  quero  não  ter  que  saber  tudo.  Eu quero.  Não  quero mais saber que  5+2=7. Não  quero. 

Não  quero ser maior de  idade! 

Eu  tenho.  Tenho  medo  que  me julguem.  Que  me  toquem, que  me desafinem,  que  me  desatinem. 

Tenho medo de saber escrever  e,  ao mesmo  tempo,  tenho medo  de  deixar de  escrever. 

Eu  quero,  eu  quero  viver.  Acredita… Eu  quero  fazer acontecer. 

Quero  deixar  de  saber  que  nada  sei. Quero  voar  sem precisar que  vejam minhas  asas. 

Quero viver. Quero  morrer, um dia… terá que  ser! 

— 

Antes  de  morrer… 

Quero viajar. 

Quero conhecer,  descobrir… 

Quero cobrir. 

Quero cobrar. 

Quero dar… e receber. 
Mas  eu  tenho…  Medo  de  confiar. Medo da  minha existência.  Medo  de  ser artista.  Medo  de  refutar.  De  sair da zona  de  conforto,  de  entrar  na  zona de confronto…  e arriscar.  De  riscar  o papel  pálido  de  frio.  De  me apaixonar… apenas por cio.
Quero  fazer amor. 

Quero  ficar por cima  dela, 

e de manhã, cedo, servir-lhe café. 

E  no  amor quero ver cor. 

Cor de  café. 

Como  aquele  vapor  ascendente, 

quero ter  fé. 

Quero,  desta  vez,  que  a  chuva  caia… Oblíqua. 

Que  te  molhe  os seios  em  silhueta. 

Quero que  as  minhas  palavras  sejam mais que  mil imagens. 

Quero  não  ter vergonha  de  gritar no meio  da  rua, para testar  a  minha inexistência.  Quero  gritar. 

Eu vou gritar! 
-Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! 

Tenho  medo  do  que  possam  pensar de mim… 

Mas,  já  vou  tarde. 

Porque existo! 

Resta-me  corrigir  esta  tensão. 

Esta  tesão. 

Ser artesão. 

Quero uma biblioteca, uma videoteca e uma audioteca.

Quero  deixar de  querer. De  querer ter  e de  querer ser. Quero desistir de existir. 

Repito… 

Quero ruir.

Ismael  Calliano,  in Antologia da Cave  – 25  Anos  de  Poesia no Pinguim  Café, 2013

ph. ricardo marques